“Baixada Cruel” - Ativismo, Mobilização e Luta por Direitos na Baixada Fluminense


Por Marcelle Decothé* em 09 | 06 | 2016

A Baixada Fluminense foi reconhecida durante muitos anos como a região mais violenta do estado do Rio, com altos índices de homicídios por cem mil habitantes, a Baixada – sempre estigmatizada pelo olhar da mídia tradicional – compreende vulnerabilidades econômicas, sociais, políticas, grande parte das mesmas devido ao enorme descaso do poder público perante a região, porém, em sua essência, é notório observar sua enorme potência cultural, e o mais importante, a vontade da população de transformar seu território local.

Falar da importância de ver o “Jovem Negro Vivo” é falar da Baixada! Podemos observar que, segundo os dados divulgados pelo ISP, no de 2014 a taxa de homicídio referente a Baixada Fluminense era de 58,7 por cem mil habitantes, já no mesmo ano a capital fluminense registrava a taxa de 19,7 por cem mil habitantes, com estes dados analisamos que apesar da população carioca residente na capital ser, literalmente, o dobro da que reside na baixada, no que se refere a taxa de homicídio a diferença se inverte e é onde vemos o tamanho do desafio que enfrentamos diariamente. É na baixada, também, o local onde mais se pratica homicídios decorrentes de intervenção policial no estado do Rio. Segundo recente pesquisa realizada pela ONG Justiça Global, só o 15° BPM, localizado no município de Duque de Caxias, registrou 318 casos de homicídios decorrentes de intervenção policial no período de 2010 a 2015.

Diante dessa realidade posta tão cruelmente a nossa frente, qual é o nosso papel na mudança desse cenário?

Na Baixada, sempre me perguntam para que serve o ativismo em Direitos Humanos, e mais do que isso, pra que servem esses direitos que pro morador da região passa tão longe a plena compreensão. A primeira grande barreira que enfrentamos é desmitificar a ideia que Direitos Humanos são pra apenas uma parcela da população, apresentando a luta como um dever de todos e a garantia de direitos básicos nossa principal demanda. Direito à VIDA, educação, saúde, moradia, direito a ter direitos é a base da minha fala, é a base da construção de uma agenda positiva que tenha a nossa narrativa, construída por nós para nós.

Falar da nossa responsabilidade na transformação de uma realidade tão cruel como a da Baixada pode parecer egoísta para alguns, mas não podemos deixar de assumir nosso papel como possíveis agentes transformadores no local em que vivemos. Deixar de apenas “ser” e passar cada vez mais a “agir”! O trabalho por uma mudança verdadeiramente efetiva na Baixada Fluminense acontece no nosso ativismo do dia a dia, o resultado talvez apareça a longo prazo, mas como toda luta ele deve ser feito coletivamente, de passo em passo, atingindo a cada pessoa, a cada espaço, a cada região.

E por falar em mudança, não posso esquecer que cada vez mais vejo a mudança sendo pautada por uma juventude combativa, cada vez mais os espaços de diálogo aberto, destinados a juventude vem servindo para que os jovens possam pensar coletivamente em garantia de direitos, acesso à cidade e políticas públicas verdadeiramente representativas.

Gosto de pensar que o meu ativismo por direitos na Baixada é na intenção de se construir uma agenda positiva de direitos que contenha a narrativa de uma geração que ainda pode atuar efetivamente na mudança dos quadros de violações cotidianos. A mensagem que pode reproduzir por aqui é a certeza que o protagonismo da juventude da Baixada na construção de uma nova agenda de direitos, assim como o fortalecimento das redes compostas por indivíduos e organizações que buscam nos apoiar nesse caminho é o primeiro passo para um efetivo percurso de luta por direitos, visibilidade e reais mudanças para a Baixada Fluminense. 




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Marcelle Decothé é feminista preta, ativista de Direitos Humanos, assistente de campanhas da Anistia Internacional Brasil e integrante do Fórum de Juventudes do Rio de Janeiro



   




            


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